A estrada é delas também

A estrada é delas também

Mara trocou o trabalho em creche pela estrada. Enfrentou preconceitos e afirma que persistência e cursos profissionalizantes a ajudaram vencer e seguir na profissão de carreteira

Antigamente, quando os caminhões eram verdadeiros brutos, carentes de conforto e mais segurança, ser carreteiro era uma condição extremamente masculina. Com o passar dos anos e a modernização, muitas mulheres se sentiram mais motivadas a encarar a profissão se destacando como profissionais que dispensam maior cuidado ao dirigir e também ao veículo, resultando em maior produtividade.

Por Daniela Giopato

Falar de mulheres ocupando cargos de liderança em gestão de transporte, dando treinamento prático para motoristas veteranos e dirigindo caminhões nas estradas do País deixou de ser um tema encarado com resistência para ser realidade comum em empresas e estradas do País. Antes dominado, em sua maioria, pelo sexo masculino, atualmente o setor oferece cada vez mais oportunidades para o público feminino. E não faltam motivos para esse avanço e ascensão feminina em funções na área, que vão desde maior cuidado com o equipamento e aumento de produtividade até o menor índice de acidentes e retrabalho nos veículos.

As mulheres que conquistaram es­paço nas empresas, transportadoras e nas estradas enfrentaram preconceitos e a necessidade de comprovar, quase que diariamente, serem capazes de desempenhar a função com eficiência. É o que conta Alice Mara Presser, 58 anos de idade e 13 de profissão, de São Bernardo do Campo/SP. Ela atua como motorista no transporte de combustível e viaja na rota São Paulo – Rondonópolis/MT.

Alice conta que largou a profissão de cozinheira em uma creche municipal de sua cidade para seguir o sonho de ser motorista de caminhão. Na época tinha 45 anos de idade e lembra que os amigos diziam ser uma loucura. Contou que decidiu apostar em seu sonho e enfrentar todas as adversidades. “Diziam que eu era velha e que ninguém iria me aceitar. Mas provei que estavam errados. Não vou dizer que foi fácil, mas venci”, declarou.

Mara, conforme gosta de ser chamada, disse que enfrentou muito preconceito no trânsito por parte de homens.  Ela garantiu que atualmente esse sentimento já não é tão grande e hoje o principal desafio de uma mulher na estrada é a falta de infraestrutura. Disse que a maioria dos locais de parada não disponibilizam banheiros adequados. “O que mais se vê por aí são locais sujos e sem apoio para pendurar nossas coisas. É complicado”, reclamou.

Para as aspirantes à profissão, Mara diz que se o sonho é ser motorista, não deve nunca desistir. Ela avisa que portas vão se fechar, mas trata-se de uma situação normal e o caminho é persistir. Alertou sobre a importância de se profissionalizar fazendo os cursos disponíveis no mercado. “Outra dica é ser comunicativa e alegre, mas nunca vulgar. Assédios vão existir sempre, mas não ligue. Leve “na esportiva” e deixe claro que você está trabalhando. Vida de motorista não é fácil e você terá de driblar a saudade da família e da vida social”, concluiu.

Outra profissional do volante na ativa é a baiana de Salvador, Jaidete Licia Macedo, 44 anos de idade. Ela também atua no transporte de combustível e viaja por diferentes regiões do Brasil. Licia, como prefere ser chamada, casou aos 15 anos de idade com um motorista de caminhão e passou a viajar com o marido. Aos poucos foi se apaixonando pela profissão e acabou por aprender a dirigir com ele. O casamento durou 13 anos e após a separação ela decidiu tirar a habilitação profissional.

Para Licia, os homens sentem respeito e admiração pelas mulheres que dirigem caminhão. Ela tem um casal de filhos que também trabalham com veículos de carga

“Amo a minha profissão. Tenho dois filhos e ambos estão na estrada. O menino transporta soja, a menina produtos de limpeza”, orgulha-se. Quanto ao preconceito, disse que nunca sofreu com isso. Licia tem opinião de que os homens respeitam e sentem muita admiração pela mulher que dirige caminhão. “Quando paro em um posto, os olhares de admiração me fazem sentir uma artista, mesmo assim, por ser mulher sinto que tenho de provar diariamente que sou capaz”, afirmou.

A falta de infraestrutura para atender mulheres carreteiras nas estradas também é citada por ela. Destacou que muitas vezes o local só tem banheiro masculino, ou então aqueles usados por todos, sem preservar a individualidade da mulher. No entanto, lembrou que hoje os postos já oferecem banheiro feminino, porém, o mesmo não acontece nas empresas que descarrega.  “Como já percebi que tenho de me adaptar ao ambiente – e não o contrário –  dou meu jeito sem nunca ter deixado isso ser um problema”, brincou.

Outra carreteira é Lis Macedo Pinho, 27 anos de idade e nove anos na profissão. Filha de Jaidete Licia Macedo,  afirma que a vontade de dirigir um caminhão começou na infância, inspirada em sua mãe. Lis atua no transporte de produtos de limpeza. Diz que ama a profissão e que   nasceu com “diesel na veia”.  Diferente da mãe, afirma que que no começo enfrentou um pouco de preconceito.

Há nove anos na profissão, Lis Macedo transporta produtos de limpeza e afirma que a inspiração para se tornar motorista de caminhão veio de sua mãe, Licia

“Sentia cobrança por ser mulher e não podia errar. Tinha de ser perfeita mas acredito que que esse tipo de cobrança está acabando na profissão, principalmente porque o número de mulheres que dirigem caminhão cresceu muito”. Como as colegas, garante que a dificuldade principal é a falta de infraestrutura nos pontos de paradas. “Penso que se esquecem que mulher também passa por alí. Mesmo assim, para quem pensa em iniciar na profissão eu digo que tem de haver insistência. “Somos mais que vencedoras”, finalizou.

Apesar de não viajar, a diretora comercial da Rodomaxlog Armazenagem e Logística, Bárbara Pereira Calderani, diz que conhece bem os desafios e preconceitos existentes na profissão. Apaixonada pelo setor, ela iniciou a carreira profissional no transporte rodoviário de passageiros, em 1999, onde trabalhou por mais de nove anos até se transferir para o transporte rodoviário de cargas, em 2008.

O jeito adotado por Bárbara para ganhar confiança e respeito dos colaboradores da empresa fundada por seu pai, onde é diretora comercial, foi se profissionalizar e se especializar em dirigir caminhão

“Meu pai foi o fundador da empresa. Ele começou dirigindo seu primeiro caminhão e crescemos nesse ambiente de transportes, fretes, cargas, preço do diesel e pedágios. Aos poucos fui me interessando pelo setor e direcionei minha carreira profissional para essa área”, explicou.

Lembra que o preconceito era um dos temores do seu pai. Porém, isso acabou ajudando ela a se preparar para os desafios que iria enfrentar. “O transporte rodoviário de cargas é um setor extremamente machista e fechado, com conceitos muito arraigados de que mulher é muito delicada e não consegue aguentar o tranco do trabalho “com caminhões”, ironizou.

Disse que a sua grande arma usada para ganhar a confiança dos colaboradores da empresa foi se profissionalizar e se especializar para dirigir caminhões e carretas. Por um certo tempo ela fazia pessoalmente os processos seletivos, inclusive com teste prático de volante. “Isso foi essencial para ganhar o respeito e a admiração dos motoristas”, explicou.

A executiva acredita que o cenário de hoje é bastante diferente, pois a profissional do sexo feminino já é muito bem aceita no mercado de transportes. “Com muita luta e determinação, as mulheres têm avançado cada vez mais no mercado de trabalho. No setor, esta caminhada de deu de forma mais lenta devido a tradição muito masculina do setor e a cultura de acreditar que transporte é lugar de homem”, disse Bárbara, concluindo que apesar de todos esses fatores, as mulheres foram se capacitando, se profissionalizando e ocupando cada vez mais cargos importantes no setor.

Capacitação profissional foi o caminho encontrado também também por Tupiara Agustinha Scortegagna, máster driver da concessionária Scania Cavese, como caminho para ganhar respeito e admiração dos motoristas para os quais tem de passar informações. Disse que quando um profissional tem domínio do seu trabalho, as pessoas percebem e passam a respeitá-lo. “Procuro manter sempre uma postura profissional embasada em conhecimentos. Faço questão de tranquilizar os carreteiros de que estou ali para ajudar e que não sou melhor que eles em nada”, explicou.

Tupiara falou também que a reação dos motoristas é diversificada quando percebem que receberão o treinamento de uma mulher máster driver. Explica que alguns se mostram nervosos e surpresos, enquanto outros têm ataques de risos e preocupação, mas é sempre bem aceita e recebida pela grande maioria dos profissionais. “Depois de 16 anos trabalhando nesse segmento, aprendi a lidar com as dificuldades e hoje não há mais nenhuma tão significante”, afirmou.

Máster Driver de concessionária Scania, Tupiara Agustinha afirmou que procurou a capacitação profissional para ganhar respeito e admiração dos motoristas

Em relação às mulheres que dirigem caminhão, Tupiara Agustinha conta que ainda são poucas as que aparecem para qualificação, porém reconhece que estas apresentam elevado nível de comprometimento e entusiasmo. “Elas são extremamente comprometidas e cuidadosas. Geralmente enfrentam dificuldades com as viagens longas, por terem de ficar longe dos filhos e da família por mais tempo, pela falta de segurança nos pernoites e a deficiência de banheiros limpos e condizentes”, explicou.

Outros pontos citados por ela são a falta apoio dos colegas e familiares, assim como a pouca credibilidade das empresas contratantes. “Para encarar a profissão é preciso gostar de desafios e estar disposta a estudar muito, mas principalmente amar o que faz, além de estar comprometida com a segurança”, finalizou.

O QUE DIZEM OS PATRÕES

O diretor de operações da Braspress, Luiz Carlos Lopes, acrescenta a disponibilidade de estrutura para capacitar as colaboradoras e prepará-las para os desafios da atividade. Ele disse que a empresa promove palestras abordando temas como saúde e segurança, além de treinamentos de capacitação e reciclagem, com o objetivo de manter as carreteiras sempre atualizadas. “Disponibilizamos um Simulador de Direção de última geração, no qual são feitos testes e treinamentos que visam o aprimoramento da função entre outras ações”, acrescentou.

Lopes destacou que nas palavras do diretor-presidente da empresa Urubatan Helou, “os controles internos mostraram que as motoristas mulheres têm mais cuidado operacional com os veículos, colaborando para a manutenção dos caminhões e sabem ser educadas nos relacionamentos com os clientes e também são mais pacientes no trânsito.  Ainda de acordo com ele, dados mostram redução de batidas na empresa. Segundo o departamento de Telemetria da Organização, as ocorrências envolvendo motoristas mulheres representam apenas 1% dos registros, o que gerou e redução dos custos de manutenção, incluindo funilaria. Outro ponto citado por Lopes é o diálogo muito mais eficaz com os destinatários das mercadorias, mesmo nos centros comerciais e industriais. Disse que no quadro de 1.331 mulheres que trabalham na empresa, 101 dirigem veículos de carga.

Outra empresa de transportes que valoriza a mão de obra feminina é a Transjordano. Para o fundador da empresa, João Bessa, o maior diferencial em contratar motoristas do sexo feminino é o fato de as mulheres serem extremamente responsáveis, organizadas, atenciosas, dinâmicas, proativa, cuidadosas e bem disciplinadas. A declaração de Bessa é baseada no desempenho das 10 motoristas da empresa. “Oferecemos veículos de última geração, com tecnologias avançadas, conforto e segurança. Nossas motoristas realizam pernoites e descansos em postos com infraestrutura completa, autorizados pela TransJordano, visando assim segurança e conforto”, concluiu.

 

Essa é uma seleção de conteúdo da Reed Exhibitions Alcantara Machado sobre o mercado. Matéria publicada originalmente em O Carreteiro.

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