Valores históricos culturais da cachaça

Por Zulu, referência na coquetelaria nacional, especialmente sobre destilado brasileiro.

A cachaça está diretamente vinculada aos grandes movimentos históricos no brasil, em cada região ele entra em uma dinâmica, um momento, e, este destilado sempre tem seu lugar por lá.

Vou tentar destrinchar alguns pontos da história brasileira que eu considero super relevantes para auto conhecimento da nossa gente. 

  • Revolta da Cachaça ou Revolta do Barbalho – Rio de Janeiro 1660 a 1661

Também conhecida como Bernada, esse movimento foi um dos primeiros em luta contra impostos da coroa portuguesa em terras tupiniquins. O Brasil sofre influência absurda com a queda do pau -brasil com relação ao seu custo a nível global, especiarias já não era tão rentável. Por conta disso, somadas a já descoberta e desenvolvida tecnologia de produção de açúcar, os portugueses chegaram a ponto de mudar o foco econômico desta então colônia. Com a crescente da produção açucareira, cresceu também a produção de aguardente (destilação), tecnologia, também, já conhecida pelos colonizadores. 

Com aumento de produção do aguardente da terra, nossa cachaça como também era chamada na época, passa a ganhar gostos de consumidores. Devo ressaltar que nessa época não era bem vista por ser tratada por alguns colonos como subproduto da produção de açúcar, por vezes, era usada como ração para animais ou atribuída a produtos para escravos – para fins de conter os ânimos e evitar rebeliões nas senzalas. Ainda com tudo isso, a cachaça vai quebrando paradigmas racistas, preconceituosos e já naquela época cresce o consumo a ponto de desbancar destilados e vinhos vindos de Lisboa. E eis um dos focos da revolta. 

A produção de açúcar cresce no Brasil, alguns  pontos chaves: os portugues detém monopólio sobre a cachaça, Rio de janeiro está em crise com a concorrência dos holandeses, ainda assim, os governadores da época decidem taxar os moradores. Entendendo que, como o monopólio da cachaça, nasce uma produção ilegal do aguardente no Rio de janeiro. Em 1659 há uma tentativa de controle, proibição de produção e comercialização. Produtores do Vale Fluminense mobilizaram por meses naquela região a ponto de em abril 1661 tropas militares intervieram, chegou a prender alguns líderes ficando Agostinho Barbalho condenado à morte, meses depois a rainha descartou a medida de proibição. Segue a cachaça com força total.

  • Inconfidência Mineira – minas Gerais 1792

Movimento político, dado início pela elite da capitania mineira da época, buscava quebrar o domínio da coroa. Tinha como foco principal ataque à taxação, impostos, estes que influenciavam a produção e comercialização do aguardente de cana já bem estruturada na época, porém não era o alvo econômico, os principais produtos alvo eram os vindos da coroa e a dinâmica de exploração dos minerais aqui na colônia. Era o ponto principal de abastecimento neste período. A taxação rigorosa não foi a toa, com o terremoto ocorrido em Lisboa em 1755, a medida era basicamente para atender a reconstrução da capital portuguesa., porém, para os mineiros não soou nada interessante. 

Teve Tiradentes como o figura mais conhecido, com a ressalva de não fazer parte da elite mineira, era militar comandante de tropa. Apesar de ser movimento de elite, teve envolvidas várias partes da sociedade da capitania mineira. No entanto com a  queda do movimento, o menos “favorecido” e com, antes, cargo de segurança que interessava a coroa, teve pena de morte e foi esquartejado par servir de exemplo. Conta-se que o último pedido de Tiradentes foi: “Molhem a minha goela com um gole de cachaça da terra.”

  • Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, movimento político popular – Salvador 1798

Liderado por negros livres, escravizados, mestiços em sua maioria alfaiates, soldados e sapateiros. tinha como principal intensão romper a relação com portugal, abolir escravatura e atender as necessidas dos pobres – coisas que a corao não tinha menor interesse. Teve grande influência da Revolução Francesa e, principalmente, a Revolução Haitiana, esta revolução aproximou o povo baiense á sua identidade brasileira na época e a cachaça já fazia parte da bebida de consumo em seus pontos de concentração.

Um trecho do lema que os ativistas do movimento pregava em forma de panfletos na cidade Salvador: ” Animai-vos povo baiense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos, o tempo em que todos seremos iguais.

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O movimento teve seu final trágico, com membros (Luís Gonzaga das Virgens, Lucas Dantas, João de Deus e Manuel Faustino dos Santos Lira) esquartejados e expostos pelas ruas de Salvador a fim de eliminar qualquer chance de retomada. Apesar dos pesares, este movimento foi um dos responsáveis por estimular outras como: Independência do Brasil, Revolta dos Malês e Abolição da Escravatura.

Dentre estes três importantíssimos movimentos para história do Brasil, sugeri dar um salto nesta linha do tempo para o evento, que também teve um cunho político, e que, sem dúvidas, ainda é um dos dois mais importantes para a história do destilado brasileiro.

  • Semana da Arte Moderna de 1922 em São Paulo

Nossos movimentos culturais, principalmente literários, eram tardios, seguiam influências, ou melhor; copiavam os europeus. A situação começa a mudar após a semana de 1922.  A crescente do movimento modernista e a necessidade de consolidar uma identidade brasileira. Nem devemos esquecer que os pilotos do movimento modernista seguem influências das vanguardas europeias, no entanto, fomentando e enriquecendo ainda mais as bases da cultura brasileira. Obviamente, a bancada conservadora não recebe isso de forma positiva. Esta semana, de 11 a 18 de fevereiro de 1922, deixou uma revolução para a linguagem artística brasileira. Criada por René Thiollier, também chamada de “Semana de 22” trouxe  vários grandes nomes como Mário de  Andrade, Anita Malfatti entre outros. O ponto máximo para nossa cachaça: com todo seu histórico, a cachaça entra de corpo e alma neste grande evento que marca o grande núcleo intelectual brasileiro e reverbera a nível mundo, não posso deixar de  ressaltar que a feira teve a cachaça como bebida exclusiva, durante toda semana do evento, propondo assim, uma reinterpretação sobre ela.

Conteúdo escrito por Zulu.

Zulu é referência na coquetelaria nacional, especialmente sobre destilado brasileiro. Indicado entre os 50 bartenders mais influentes do mundo. Foi campeão do World Class Brasil como melhor Bartender do Brasil. Indicado entre os 50 bartenders mais influentes do mundo e eleito bartender do ano em 2016 pela Revista Gosto e em 2018 pela Revista Go Where Gastronomia. 

Desde 2016, faz parte da academia que elege os melhores bares do mundo (The World 50 Best Bars) desde 2016. É consultor de bares por todo o Brasil, desenvolveu o cardápio e identidade do conceito Vista Bar – Ibirapuera. 

É dono da primeira marca de bitters do país, o Zulu Bitters e, em 2017, lançou a plataforma Molhando a palavra – Canal no YouTube para falar de cachaças (principal opção de base alcoólica de suas receitas autorais). 

Este conteúdo é de inteira responsabilidade do criador e não, necessariamente, reflete a opinião da Reed Exhibitions – organizadora do evento BCB São Paulo.