A linguagem do bar

Por Adriana Pino, bartender há pouco mais de 15 anos. Dedica a carreira ao mundo dos sabores, pois acredita que através da coquetelaria é possível entregar mais do que drinks, é possível transformar momentos comuns em histórias inesquecíveis.

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Adriana Pino. Crédito: Arquivo Pessoal.

Preparar um coquetel é tão importante quanto o prazer de aprecia-lo, abrir a mente e provocar o paladar pode ser uma experiência marcante.

É claro que se a coquetelaria não é assunto do seu dia a dia, não é obrigação nenhuma você entender sobre drinks. Muitas vezes você pode achar que o cardápio está ali para te explicar tudinho e pronto, mas nem sempre os cardápios são tão simples ou os garçons tão preparados para esclarecer todos os termos ali escritos.

A realidade deveria ser outra, e ela será. A coquetelaria tem se expandido muito rapidamente em nossa cultura, e é exatamente por isso que eu escrevo este artigo, pra te ajudar a avançar alguns passos em relação ao mundo etílico e quem sabe fazer da sua próxima ida ao bar, você possa sair do tradicional e se aventurar mais no mundo dos sabores.

Tomar um drink pode ser muito sofisticado, mesmo que esta não seja sua real intenção. Com o tempo você se verá uma pessoa mais exigente, já que entenderá que tomar um drink ruim ou mal feito, investe-se o mesmo tempo, energia e valor que um bem executado! Desta forma, como cliente, você fará parte de uma cadeia que “obrigará”, através de um efeito borboleta, a nossa profissão a ser tornar mais elevada e consequentemente mais valorizada.

Já vemos isso acontecendo na indústria, eu falo da indústria de bebidas, mas posso afirmar como na indústria geral de alimentos. Marcas antigas têm se reinventado pra acompanhar o mercado do consumo, mudando suas embalagens para se tornar mais atraentes, alterando rótulos para rejuvenescer e se destacar em meio a tantas outras escolhas, ou aumentando seu portfólio criando novas categorias de bebidas.

 A indústria também tem se preocupado em orientar o cliente cada vez mais sobre os drinks, através de lives, vídeo aulas e boxes personalizados, porém nem sempre esses produtos são criados por bartenders. Eu sempre vejo caixa de especiarias e nela está escrito caixa de “Gin tônica “, porém não tem nenhum Gin e nenhuma tônica na caixa, é apenas uma caixa de especiarias que, claro, você pode fazer gin tônicas e muuuuito mais.

Nunca se vendeu tanto drink na caixa como nos últimos meses, todos os nichos se interessam por coquetelaria, eu, por exemplo, já criei drink para marca de sorvete, de chocolate, pra marca de roupa, de pimenta, de iogurte, pra banco, e por aí vai… outra prova de crescimento e valorização da profissão são a quantidade de bebidas nacionais que tem aparecido no mercado, cachaças e gins, já estamos carecas de saber, mas ainda estamos nos aventurando na criação de outros destilados como runs, whiskies, bitters, além de apertitivos, licores, sem contar vinhos e cervejas de extrema qualidade.

Pensando assim, creio que aproximadamente 90% dos destilados são servidos em coquetéis, isso significa que a indústria cada vez mais precisa desses profissionais qualificados, para criar “fórmulas perfeitas” e tornar seu produto mais atraente e fácil de consumir. O profissional de bar que quiser se destacar precisa ter disciplina e paciência, a coquetelaria nada mais é do que repetição.

E compartilhar conhecimento deveria ser responsabilidade de cada profissional, então, vamos lá pra algumas dicas que você precisa saber ao sentar em um balcão de bar:

  • Entenda o que você gosta, e passe para o bartender exatamente suas preferências, doce, amargo, cítrico, floral;
  • É importante também saber qual base alcoólica você prefere, assim fica mais assertivo para o bartender “criar” ou orientar no cardápio aquilo que você vai gostar mais;
  • Se quiser pedir um Gin tônica, peça um Gin TÔNICA, pedir apenas gin ao bartender é passar a metade da informação daquilo que se deseja, gin é o destilado, Gin tônica é o drink, mas existem diversos outros drinks que podem ser feitos com Gin, experimente!;
  • Caipirinha, a famosa Caipirinha, às vezes parece que é mais apreciada por estrangeiros do que por nós. Todas as vezes que atendo um gringo ele pede CAIPIRINHA, nem preciso perguntar se prefere com cachaça, mas sempre que um brasileiro me pede caipirinha eu preciso confirmar se posso usar cachaça e isso pra nós bartenders, muitas vezes, parece um absurdo. Óbvio que caipirinha é cachaça, mas a maioria ainda pede Caipirinha de Vodka com morango, Caipirinha de sakê com uva, já me pediram Caipirinha de Gin. Tecnicamente eu, como bartender, entendo o que o cliente quer consumir, mas se eu nunca esclarecer o que é uma Caipirinha e perco a chance de falar sobre caipirinha, de valorizar este produto e de ajudar esse cliente a pedir corretamente da próxima vez.

Então de uma vez por todas, CAIPIRINHA, meu povo, é nosso patrimônio, feito com Cachaça, limão, açúcar e gelo.

E não me fale que você não gosta de cachaça, pra mim, você apenas não aprendeu ainda a apreciar este produto e está tudo bem se você ainda não gosta, quase ninguém gosta de comida japonesa na primeira vez, e se você se fechar dizendo que não gosta, nunca conseguirá apreciar. Qualquer coisa que você desejar, seu paladar é capaz de conseguir amar, se você provar um bloody Mary “ruim”, não significa que todos os bllodys marys do planeta sejam ruins, você só não deu sorte ou ainda não aprendeu a apreciar;

  • Pedir um Martini, precisa ser mais especifico, não é vergonha nenhuma pedir explicação, Martinis são estilos de coquetéis, martinis são as taças em formatos Y, Martini é marca de vermouth, Dry Martini é um drink feito com gin e vermouth seco e azeitona, Sweet Martini com gin, vermouth tinto (doce) e cereja e por aí vai… a pergunta é, como você gosta de seus martinis.

  • Pedir para o bartender tirar o gelo do copo, desde que não congele seu nariz, o gelo é necessário para descer a temperatura dos ingredientes e ou manter a temperatura e diluição, em uma taça de gin tônica, por exemplo, encher o copo de gelo é necessário para que não haja diluição excessiva. Parece estranho, mas quanto mais gelo, menos aguado fica seu drink, pouco gelo neste caso fará com que com o gelo gaste mais energia para manter seu drink gelado, e ele ficará “aguado” logo. Se a tônica estiver em temperatura ambiente então, perderá a graça mais rapidamente ainda porque, além de alta diluição, perderá as bolhas.

Outro exemplo é quando um cliente reclama que colocando um “gelão” ira menos drink no copo. Bom, a ideia é a mesma aqui, o gelo de pedra única tem menos área de contato com a bebida, sua principal função é manter o drink gelado, o bartender já pensou no tamanho certo do copo e do gelo.

  • Canudos: A não ser que você receba um copo com muito gelo triturado, o canudo é sempre dispensável, eu costumo dizer que canudo é para crianças que não conseguem segurar copos ou pessoas com necessidades especiais. Outra dica para não se usar canudo é pensar em regras básicas como: copos com hastes nunca usamos canudos, gin tônicas, sprizs, dispensam esse item facilmente, “ah, mas é apenas para mexer o drink”, então peça um mexedor, ou para o bartender faze-lo.

Drinks com espumas dispensam canudos e se você for bartender, tenha carinho ao explicar para o cliente porque você não usa canudos em seu bar e sirva os coquetéis bem mexidos e sem gelo triturado.

  • Sobre chorinho, o drink já foi pensado numa medida exata para não sobrar na coqueteleira e nem faltar em seu copo, chorinho só vai desiquilibrar seu coquetel, confie no bartender.
  • Nunca mude ou troque os ingredientes do cardápio, ex. pedir um gin tônica com a espuminha do moscow mule, claramente é sinal de que você precisa muito de um amigo bartender! Rss
  • Já ouvi muitas vezes cliente pedindo a saideira como se fosse obrigação o bartender “dar” bebidas. Nem todo bartender é dono do bar, e mesmo que fosse, saideira é uma gentileza do bar ao cliente, pedir saideira é deselegante.

Bom por enquanto é isso, espero ter ajudado quem é frequentador de balcões, dos dois lados! Melhorando o consumido, como um todo e valorizando o profissional de bar do jeito que ele merece!

Saúde, sempre consuma com responsabilidade!

Conteúdo criado por Adriana Pino, bartender a pouco mais de 15 anos. Dedica a carreira ao mundo dos sabores, pois acredita que através da coquetelaria é possível entregar mais do que drinks, é possível transformar momentos comuns em histórias inesquecíveis.


O conteúdo é de inteira responsabilidade do criador e não, necessariamente, reflete a opinião da Reed Exhibitions – organizadora do evento BCB São Paulo.