Além do “Discurso do Sucesso”

Por Guilherme Ferrari.

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Já ouviu falar de “Análise do Discurso”? Esse é um campo de estudo sobre textos e falas em televisão, propagandas, portais e tudo que envolve comunicação. Um exemplo claro pode ser a manchete do Jornal. A chamada abre o contexto e o discurso passa a mensagem (nem sempre de forma direta). Ou seja, o discurso é o efeito de sentido entre interlocutores ou partes que se comunicam.

Mas longe de mim querer abordar esse campo onde não tenho domínio, afinal meu propósito profissional é a hospitalidade e não as teorias dos mestres Foucault e Cia. Porém, acho interessante pensar como os interlocutores do nosso dia a dia no bar estão se comunicando. Afinal de contas exercer a hospitalidade acaba passando pela linguagem e comunicação.

E se você adaptar a Análise do Discurso pro seu bar e pra sua carreira, qual seria o discurso que você passa através do seu trabalho e suas ambições como profissional? Os interlocutores do seu local de trabalho se comunicam efetivamente? E você? Está alinhado ao discurso do seu local de trabalho?

No meio dessas respostas, você sente que um discurso externo, alheio à sua realidade, influencia no seu desempenho? Calma que isso anda sendo bem comum.

Pra ficar melhor, vamos entender esses interlocutores:

Dentro de um bar temos várias áreas que precisam se comunicar bem e um bom gestor deveria sempre estar de olho, algumas são Custos, RH, Financeiro e Logística. Mas quero tratar aqui dos interlocutores externos e que muitos profissionais de bar têm dificuldade pra interpretar ou até filtrar o que serve pra ele. Seja por consequência do anseio em ser reconhecido, ou pelos estranhos hábitos de ctrl-c ctrl-v criados na indústria.

Poderia citar vários, mas os principais que podemos observar influenciando profissionais são Campeonatos de Coquetelaria e Premiação de Bares.

Esses interlocutores têm em comum a meta de expor um produto ou evidenciar um modelo que se adequa ao interesse de uma indústria, e é preciso que o bartender ou gestor saibam filtrar que o “melhor bar e bartender” é um conceito relativo e depende dos olhos de quem julga, e muitas vezes esses olhos não enxergam o contexto por inteiro. Por exemplo, porque um bar litorâneo de batidas seria pior que um de cidade grande com seus martinis e reverse vespers automaticamente, já que no fundo da questão os dois são bares? Muitos profissionais anseiam pelo reconhecimento através da premiação, dos aplausos e das seguidas e curtidas. Eu incluso, já me enxerguei assim. E com a experiencia que tive com campeonatos, viagens e trabalho para marcas comecei a rever o que é realmente é importante para mim.

Tente perguntar a si mesmo: Eu preciso ganhar um campeonato para ser um bartender ótimo? Meu bar precisa ganhar prêmios ou estar em uma lista para ser próspero e duradouro?

Veja, eu adoro esses prêmios, adoro participar e quiçá levar um pra casa. Todo mundo gosta. Mas não pode ser esse o discurso que define quem é bom ou mal profissional e qual bar vai ser melhor que outro.

Aliás se tem um hábito que poderíamos dar menos importância hoje em dia é o da comparação, mas enfim, papo pra um outro artigo!

Eu te convido a fazer essa “Análise do Discurso” nas matérias que você lê, marcas que você consome e pessoas que você segue. Veja se o que está sendo apresentado diante de você te faz um profissional mais curioso e interessado em aprender novas coisas, ou se simplesmente tem impõe o hábito de copiar e colar de quem está sob os holofotes. E seja sincero, pois, de pausterizada já basta a cerveja.

Discuta o que você descobrir com seus colegas no trabalho, ou com seus gestores. Ou se você é um gestor procure entender o porquê o bartender do seu bar quer muito ganhar um prêmio ou aparecer em marcações nas fotos. Mais importante que ações refletirem nos seus números de venda, é refletir no bem estar de quem faz a sua venda acontecer.

Apesar de essa não ser uma coluna de auto-ajuda, tente fazer reflexão: Esses prêmios vão me trazer a tal felicidade ou satisfação profissional que eu tanto busco? Sim, é difícil achar a resposta, mas calma, não quero te fazer sair correndo procurando um terapeuta depois que ler. Somente enxergar que listas, prêmios e likes da rede social não vão tornar seu trabalho mais rentável, seu drink mais gelado ou seu ambiente mais cômodo. Esses desafios são muito maiores do que criar um drink e apresentar em 5 minutos aos jurados, e o maior campeonato é o dia a dia atrás do balcão.

A maneira como você enxerga seu papel e o discurso que vêm de fora, influencia diretamente na sensação de reconhecimento que você tem. É exatamente essa sensação que pode frustrar um bom profissional e fazê-lo abandonar sua curiosidade, ou em português bem claro, o tesão de fazer algo bacana. Pare e pense, e me diga se todas as metas e objetivos que você traçou são genuinamente criadas e planejadas por você e seu time, ou se estão de alguma maneira sofrendo uma pressão externa para se adequar à um modelo… ou discurso.

E o discurso aqui deste post é simplesmente esse: Enquanto perseguimos fórmulas e POP’s pra galgar uma lista de melhores do mundo, vamos deixando de lado pequenos detalhes que fazem dos nossos profissionais pessoas únicas. Gastamos e investimos mais em empreitadas para atrair votos do que investimos na educação e desenvolvimento profissional do bartender. Passamos a dar mais valor pra quem tem X-mil seguidores do que pra quem está a 19 anos ensinando novas gerações de bartenders, como é o caso de um lendário chefe de bar de um famoso bar na Vila Madalena.

Querido amigo e amiga, você não precisa ser o melhor do mundo, você só quer ser feliz fazendo o que ama. Então relaxa, sorria, faça seus Negronis, Capirinhas e Aperóis e não se preocupe com as listas… eu garanto que elas também não se preocupam com você. E se por algum momento você duvidar se aquilo que você faz tem algum valor lembre dos seus bons clientes que te valorizam e das pessoas que estão do seu lado noite à noite.

Quando perguntam o que eu faço costumo responder que tenho o melhor trabalho do mundo. Eu sou bartender! E você, se sente assim?


Conteúdo criado por Guilherme Ferrari.

Sobre o Autor: Faço o que faço há pouco mais de 4 anos. Comecei nos famosos freelas. Um dia o barman da casa faltou e eu pulei pra trás do balcão… nunca mais pulei de volta. Deixei de lado os cálculos da área automotiva, as comissões do mundo corporativo e as falsas motivações de “ser alguém na vida” e fui entender sobre cocktails.

 O bar me escolheu, me acolheu e me deu muito mais amigos do que ressacas. Participei de campeonatos, ganhei uns e perdi outros. Criei em 2020 um canal no Youtube pra falar de história e drinks e hoje também sou colunista aqui.

Entre preparo de coquetéis, consultorias e álcool em gel nas mãos, escrevo sobre nossa área e anseios.


O conteúdo é de inteira responsabilidade do criador e não, necessariamente, reflete a opinião da Reed Exhibitions – organizadora do evento BCB São Paulo.