Aprendizados de tempos desafiadores

Conteúdo escrito por Tony Harion – @tonyHarion que é Educador, Especialista em coquetelaria e Fundador Mixing Originals.

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Nosso segmento de hospitalidade, que inclui a coquetelaria e diversos estilos de negócios ligados à alimentação, turismo e entretenimento, passou por um dos anos mais desafiadores das últimas décadas. Diversas famílias que dependem de trabalhos nestas áreas foram severamente impactadas, alguns perderam pessoas queridas e muitos passaram por momento de alto risco em sua saúde.

Crises como estas nos forçam a reavaliar cenários, repriorizar nossos caminhos e nos reinventar. Seria completamente inadequado dizer que houve algum “lado positivo” neste momento que passamos. Realmente não há. O que podemos fazer é olhar para o passado recente e avaliar as mudanças que fomos forçados a fazer e que podem nos ajudar a levar uma vida diferente daqui para frente.

Algumas semanas atrás perguntei a nossa comunidade de coquetelaria em meu Instagram e em grupos de bartenders quais foram os hábitos, aprendizados e mudanças que adotaram nesse período e que podem impactar de forma positiva o seu futuro daqui para frente. Ao avaliar as mais de 180 respostas, pensei em listar e enumerar as principais citadas com a intensão de inspirarmos uns aos outros e aprendermos com essas mudanças.

Bem estar e saúde:

Uma grande quantidade de bartenders mencionou mudanças de hábitos relacionadas ao bem estar e à saúde:

Dormir melhor: uma fatia grande de nossa comunidade acaba trabalhando em expedientes noturnos. Isso nos força a trocar o dia pela noite, o que não é exatamente natural. Foram mencionadas dezenas de respostas de pessoas que priorizaram descansar e deixar seu corpo seguir uma rotina um pouco mais diurna.

Reflexões internas: com o período de isolamento, muitas pessoas tiraram um tempo para olhar para dentro, para si mesmas. Algumas práticas comumente citadas para ajudar com isso foram a meditação, Yoga, começar uma terapia e até mesmo a redescoberta da espiritualidade. O que nos leva ao próximo ponto:

Priorizar com mais sabedoria: Foi citado que essa autorreflexão mencionada acima, em muitos casos, levou a maneiras inovadoras de priorizar os projetos, entender as pessoas realmente importantes para cada um e onde focar realmente para chegar aos seus objetivos de vida.

Repensar a relação com o álcool: com menos eventos, bares fechados e o distanciamento “da turma”, muitos tomaram a oportunidade para repensar sua relação com o álcool e acabaram por reduzir seu consumo.

Exercícios físicos: Pensar no seu corpo e se exercitar de forma diferente foi essencial para muitos que responderam às enquetes. Práticas como o Yoga e o Pilates (que podem ser feitas em casa) ajudaram como forma de se exercitar, relaxar, lidar melhor com os problemas e viraram constantes em suas vidas.

Pensar nas pessoas:

O cotidiano de trabalho em bares e restaurantes força muitos de nós a uma rotina frenética e cansativa. Com a diminuição das atividades, vários profissionais perceberam que era hora de focar no que realmente importa: as pessoas.

Aproximar e reconciliar: mesmo à distância, foi mencionado que o isolamento reaproximou pessoas com as quais naturalmente foi se perdendo contato. Isso se deu de várias formas: conversar mais com familiares que não se encontrava muito, descobrir novas rotinas e atividades com parceiros e parceiras, curtir um tempo em família com o pet da casa, inventar novas brincadeiras com os filhos, etc.

Filhos… ah! Os filhos…: Se ficar no isolamento não é fácil, imagine com a chegada de um recém-nascido? Essa foi a realidade de várias novas mamães e papais da nossa comunidade que tiveram a chegada de seus filhos durante a reclusão. Sem poderem contar com o carinho e a ajuda dos avós ou amigos mais experientes, vários pais tiveram que se reinventar e aprender na prática como cuidar dos pequenos.

Ajudar ao próximo: mesmo com a vida financeira de cabeça para baixo, nossa comunidade entendeu que haviam pessoas em situação ainda mais delicada e se juntaram para ajudar quem precisava. Nasceram diversas iniciativas de apoio a segmentos  específicos (como o Coletivo Ada Coleman), mas também ações para ajudar pessoas individualmente, como foi o caso do Pará (RJ), que sofreu um grave acidente de moto, e o Luís Fernando (SP), bartender que perdeu sua moradia durante este período.

DIY / Bricolagem (Faça você mesmo):

Com a grana em baixa e o tempo mais livre, foi comum que os profissionais de bares se virassem para fazerem eles mesmos tarefas que em um momento diferente, teriam pagado outras pessoas para realizar. Com isso, muitos mencionaram que descobriram novos hobbies e atividades que contribuem em casa, economizam um dinheirinho e ajudam a aliviar o clima tenso da reclusão.

Cozinhar: Eu gosto muito de definir a coquetelaria como a gastronomia liquida. Isso não quer dizer que cozinhar e fazer um coquetel são a mesma coisa ou que envolvem as mesmas técnicas. Muitos aproveitaram esse período para economizar cozinhando em casa e descobriram que essa pode ser uma atividade saudável e prazerosa. Houve ainda umas cinco menções de pessoas que adotaram esta atividade para garantir uma renda extra em casa.

Manutenção doméstica: sabe aquele quadro que você estava enrolando para pendurar, aquela torneira vazando, aquela parede que precisava ser pintada? Pois é, para muitos, essa foi a hora de colocar essas pequenas tarefas em dia. O Pablo Jorge, bartender argentino que mora em Belo Horizonte foi além e construiu boa parte da sua nova casa com as próprias mãos durante estes últimos meses. WOW!

Marcenaria amadora: uma das atividades que me ajudou pessoalmente a tirar o foco dos problemas foi trabalhar metais e madeira em minha pequena oficina improvisada. Fiquei bem surpreso quando várias pessoas também mencionaram que fabricaram e reformaram móveis e pequenos objetos para suas casas.

Jardinagem e horta: De longe esta foi a atividade mais mencionada dentro da categoria “Faça Você Mesmo”. É só ver os Instagrams de bartenders que percebemos que a quantidade de fotos de plantinhas e hortas domésticas cresceu muito. Destaques merecidos aqui para o cultivo de ervas e especiarias, além das PANCS (plantas alimentícias não convencionais).

Empreender:

Para muitos, empreender não foi apenas uma opção, mas uma necessidade. Com os bares e restaurantes fechados, vários tiveram que se virar de novas maneiras para garantir ou complementar sua renda familiar. Neste quesito não faltou inspiração. Vimos inúmeros negócios na área da coquetelaria e fora dela, sejam virtualmente ou negócios físicos.

Planos em dia: Tive vários relatos de pessoas que “colecionavam” planos antigos que nunca tinham tempo de tirar do papel ou de desenhar um plano de negócio formal. Este momento de necessidade e tempo extra ajudou a dar o “start” e realmente estruturar estas iniciativas.

Delivery: O bar pode estar fechado, mas a sede continua lá. Foi pensando nisso que vários de nossos colegas iniciaram projetos relacionados ao delivery de drinks prontos, ingredientes para as pessoas fazerem coquetéis em casa e até doses de bebidas para degustação.

Novos produtos: Muitos aproveitaram para desenvolver novos produtos para a coquetelaria seja para consumidores finais ou para bares como, por exemplo: novos gins, linhas de bitters, frutas desidratadas e até coquetéis enlatados, mostrando que há um grande espaço para crescimento em mercados relacionados à coquetelaria.

Empreender online: este ciclo de isolamento reforçou uma tendência de digitalização que vinha se arrastando a muitos anos. Os bartenders não ficaram fora desta. Alguns fizeram uso da oportunidade para lançarem cursos, palestras, eventos de degustação, programas de treinamento, além da venda online de produtos físicos voltados ao mundo da coquetelaria.

Foco nos estudos e aperfeiçoamento profissional:

O conhecimento é a única coisa que você adquire e ninguém tira de você. Este foi um momento muito relevante para aqueles que buscam aprimorar novas habilidades e serem mais competitivos no mercado de trabalho. Diversos cursos online passaram a ser disponibilizados com descontos convidativos ou até mesmo de forma gratuita (eu publiquei uma planilha com mais de 10000 cursos ofertados gratuitamente durante a pandemia, confira aqui se alguns estão ainda disponíveis). Dentre as várias áreas de conhecimento as mais citadas por bartenders foram:

Línguas: dominar uma segunda língua pode não apenas te ajudar a impulsionar sua carreira, mas também expandir seus horizontes de aprendizagem. O inglês, espanhol e francês foram as línguas mais citadas, mas tivemos algumas mais exóticas também como o mandarim e japonês.

Ferramentas digitais e produção de conteúdo: Softwares para produção de conteúdo, otimização de busca, rede sociais, edição de imagens e vídeos, ferramentas de vídeo conferência, marketing digital, vendas online foram muito mencionados.

Gestão: Para quem quer aprimorar seu potencial no mercado de trabalho é importante entender dos negócios por de trás da operação. Para isso, muitos recorreram a cursos de Excel, gestão de pessoas, administração, controle de custos, técnicas de vendas e estratégias de negócios.

Coquetelaria e assuntos relacionados: para vários, este foi o momento de pegar aquele livro clássico e dar uma revisitada ou de fazer cursos de aprimoramento em áreas relacionadas à coquetelaria. Bartenders de algumas regiões organizaram até grupos de estudos em torno de um dado livro a cada semana.

Mudanças na relação com o dinheiro:

De longe, os tópicos mais comuns nas respostas foram relacionados ao dinheiro. Seja com a forma como gastamos ou correlatos à maneira como poupamos.

Economizar e poupar mais: Diversas pessoas mencionaram que gastavam muito mais dinheiro do que realmente precisavam ou deveriam. Seja aquela cerveja a mais no fim do turno ou aquele equipamento de bar que você nem precisava, nossa comunidade tende ao hábito de poupar menos que deveria. Com o dinheiro mais curto, isso ficou bem evidente e recebi muitas respostas relacionadas à importância de se guardar e cuidar do dinheiro com mais carinho.

Fazer uma reserva de emergência: O aperto financeiro fez muitas pessoas perceberem a importância não apenas de poupar, mas de estar pronto para adversidades. Confiar no dinheiro de hoje para comprar o almoço de amanhã se mostrou arriscado para muitos que disseram que estariam mais preparados para momentos de aperto daqui para a frente.

Diversificar as fontes de renda: Quando se coloca todos os ovos na mesma cesta e a cesta cai no chão, você fica sem ovos. E isso foi o que aconteceu com muitas pessoas com o fechamento dos bares. Um ponto muito comum nos comentários foi de buscar fontes de rendas extra em outros setores menos expostos ao fechamento de bares, como por exemplo oferecer cursos e consultorias em outras áreas.

Pensar no futuro: o futuro chega para todos. No nosso segmento muitas pessoas vivem de um freela para o outro e não se preocupam muito com o futuro que parece distante. No entanto, nesta pandemia vários profissionais mencionaram que começaram carteiras de investimentos pensando lá na frente, quando decidirem deixar os balcões, pendurarem as coqueteleiras e se aposentarem. Planejar o futuro é sempre uma decisão sábia. Deixar sua aposentadoria para o acaso, nem tanto.

Com a retomada das atividades e do comércio, o tempo vai ficando mais justo para todos nós, mas espero que este compilado de experiências possa inspirar você a buscar ou aprimorar suas habilidades em algumas destas áreas, no seu tempo.

O intuito deste post é olharmos para os momentos difíceis e nos inspirarmos para seguimos com um futuro mais próspero, observando as mudanças que nossa comunidade passou.

E você? Mudou a sua forma de pensar ou aprendeu algo novo que irá adotar daqui para a frente? Comente aqui embaixo ou em suas redes sociais. Compartilhe o conhecimento!


Conteúdo escrito por Tony Harion – @tonyHarion que é Educador, Especialista em coquetelaria e Fundador Mixing Originals.


O conteúdo acima é de inteira responsabilidade do criador e não necessariamente reflete a opinião da Reed Exhibitions, organizadora do evento BCB São Paulo.