Se sobra profissionalização, dá tempo!

Por Carol Oda, embaixadora do BCB São Paulo

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Em primeiro plano, pilha de moedas de cor prata, com relógio de borda dourada e painel de números e ponteiros desfocado ao fundo, à direita da imagem

7 meses de quarentena. No começo era uma agonia, uma incerteza, um pessimismo pesado por um lado. Por outro, rolava uma expectativa de que o mundo ia mudar, que a gente precisava disso, que a vida ia ser diferente, que o ser humano blá blá blá… Era um monte de tentativa de adivinhação do porvir.

E não que a pandemia tenha acabado, claro. “Corona Vairusss” tá aí, firme e forte. Mas a reabertura do nosso setor, a volta de muitos privilegiados – empregados – ao trabalho, nos trouxe um certo ar de normalidade. Até faz a gente falar assim, no passado.

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Eu adoro esta frase e acho que ela representa bem o que a gente está vivendo: “quando a maré baixa, a gente vê quem tá nadando pelado.” E nunca a maré baixou tão rápido e pra todo mundo, escancarando, na vitrine – principalmente virtual, quem são as pessoas, e, pra gente mesmo, o que nos faltava ou nos sobrava. E entre angústia, exposição e privilégios, uns paralisaram, morrendo de vergonha de estarem pelados ou com o maiô velho puído, e não saíram do lugar.

Outros saíram correndo loucamente, em várias direções. Seja indo em direção a um vendedor de canga na praia, seja pegando roupa na sua cadeira, mas buscando uma solução. E sim, tiveram os que ficaram parados, superconfortáveis com a maré baixa, de sunga e de biquíni lindos e novinhos. Sem grandes incômodos com a nova situação.

E você? Quem está sendo na quarentena? Dos superprodutivos? O empreendedor, que saiu inventando moda pra vender, engarrafando drink, vendendo pão artesanal, criando serviços e novidades pra pagar os boletos? O influencer, que meteu as caras nas câmeras do celular e colocou o seu conteúdo pra jogo? O espectador interessado, que se valeu de todas as lives gratuitas e garantiu, praticamente, sua pós-graduação? O artesão, que aprendeu um monte de trabalho manual para terapia ocupacional? O estudioso, que buscou profissionalização, aproveitou o sossego para aprender e ler todos os livros que queria? O Marie Kondo, que saiu colocando a vida e a casa em ordem?

Profissionalização e tempo

No fim, ouso dizer que o grande sábio foi o que não se comparou, não entrou na neura de “ter que se reinventar” (eu tenho uma nhaca com esse “ter que”) e nem se incomodou porque todo mundo da sua timeline tinha se “reinventado” ou estado suuuper ativo. Foi o que refletiu e teve paz sobre o que estava fazendo com o tempo. Aquilo que a gente (ainda mais dessa categoria das escalas maledettas, que dobra e trabalha aos sábados, domingos e feriados) mais reclama que falta na vida virou, pra muitos, o que mais sobra.

A gente perdeu a desculpa da falta de tempo. Talvez nem tenha feito aquilo tudo – ou quase nada – do que a gente falava que faria se tivesse mais tempo. E tudo bem. Foi plantado na gente o sentir culpa por desfrutar o ócio. A gente tem vergonha de dizer que dormiu mais, que tá livre… É chique e mostra importância ser ocupado o tempo todo, não? Que horror!

A gente podia devolver a dignidade ao ócio, principalmente o ócio de quem parou pra ver o filho crescer. Que cuidou da saúde, que cozinhou para os vizinhos, que namorou mais. Que passou mais tempo olhando pra si, que curtiu o pôr do sol laranja, que começou a terapia… Talvez somente porque houve ócio é que tantas versões e tantas produções legais apareceram na quarentena.

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Ter tempo é fazer escolhas e são escolhas que nos fazem ter tempo. Gerir tempo é gerir a nossa energia, porque ela não é infinita e enquanto gastamos para uma coisa, vai faltar pra outra. E algo que muito acontece no nosso setor é gente desistindo, indo trabalhar na empresa da família. Ou virando qualquer outra coisa porque quer, justamente, ter tempo.

Uma das maiores dificuldades na minha vida de consultora é convencer donos que melhorando a escala, acabando com a “dobra” (trabalhar almoço e jantar) diária e os longos intervalos sentados na calçada da entrada de funcionários, dando folga dupla pelo menos uma vez por mês, enfim, dando mais tempo pra equipe, o clima, o desempenho e inclusive as vendas melhoram. Afinal, gente feliz trabalha melhor. Juro que isso existe, é possível e é só deixar de ser preguiçoso e debruçar-se na escala todo mês. Dá trabalho? Dá. Mas o ganho é proporcional.

E não só é bom para um negócio, mas é bom para o mercado como um todo, que sai perdendo com essa desistência de quem quer viver. Se falta liderança boa e braço direito, mas sobra gente sobrecarregada, cansada da devoção por ser dono, fechando restaurante e deixando de ser chef depois de uma crise de burnout, talvez esteja aí um dos pontos.

Por isso, dar mais tempo não é ser legal ou bonzinho. Ter tempo suficiente é resultado de profissionalização. Falta a gente melhorar muito quanto a processo, gestão, otimização de produção, comunicação interna, inteligência de cardápio e, majoritariamente, gestão de pessoas.

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Dessa maneira, perde-se muito tempo nas operações de bares e restaurantes porque não há divisão de tarefas às claras. Não há fluxogramas colados na parede, apostilas completas, detalhadas planilhas de Excel. Perde-se muito tempo, dinheiro e energia nessa “bateção” de cabeça da desorganização e falta de profissionalização.

Capacitação técnica e profissionalização gera processo, processo gera controle e agilidade e uma gestão redonda faz sobrar tempo. Logo, com esse tempo, a certeza de uma equipe com qualidade de vida e mente oxigenada, caminhamos rumo ao fim das máximas de que “trabalhar com gastronomia é assim” ou “não aguenta, bebe leite”. Portanto, se não se esforça em ser um melhor gestor, de negócios e pessoas, não reclame que não tem gente boa pra trabalhar. 2020. Pandemia. Já tá mais do que na hora de usar isso como diretriz de gestão.

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