A falta que o bar faz em tempos de coronavírus e isolamento social

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Por Carol Oda, embaixadora do BCB São Paulo

Em dias de isolamento social, se alguém ainda tinha dúvida, fica claro o objetivo maior da nossa indústria, da nossa profissão, do acordar diário de quem se dá bem e se vicia nessa vida de bar.

O bar, acima de qualquer produto, carta, rótulos, projeto arquitetônico, prêmios e posições em rankings, é um lugar social. O bar é um ecossistema, cheio de detalhes e peculiaridades, cheio de seres vivos que interagem num ambiente, sendo protagonistas de histórias que ficarão vinculadas àquele lugar para sempre.

A alma de um bar são as pessoas. Um bar lindíssimo, o mais caro e bem escolhido enxoval, os xaropes artesanais, a playlist mais encaixada com o conceito – nada, nada tem um porquê, tem graça, sem as pessoas. São elas. Delas e por elas.

Do lado de lá do balcão, os clientes: os de sempre, os que amam a equipe, os que caíram sem querer para o aniversário de alguém, o que viu na matéria do jornal, aquele cara que só senta naquela mesa daquela praça, aquela mulher que só senta em frente àquela bartender no balcão, os amigos do colégio que marcaram encontrão, os do primeiro encontro de aplicativo, os encamisados do mercado financeiro relaxando depois da bolsa cair.

Do lado de cá, uma equipe: uma molecada, um senhor de 60 anos, a que não dormiu porque foi para balada, o que tem 4 filhos, a que largou a vida “normal” para ser bartender, as mina do batonzão, os caras do muque forte para bater coqueteleira, os go go dancers, os sérios clássicos e elegantes que falam sobre a política internacional, o imigrante, o da caipirinha batida, a tatuada de olhar intrigante, o tiozinho que deixou até marca de cotovelo no balcão onde ele apoia há 20 anos.

Tem o garçom psicólogo, a garçonete que te ajuda no flerte com a mesa do lado, o da limpeza para quem você sorri aliviado quando cruza na porta do banheiro, certo de que pega o banheiro limpinho, a cozinheira que você vê pela janela aberta da cozinha no caminho do corredor, o que separa briga, a que lava louça sorrindo. É tanta gente, de todo tipo. Mas sempre gente.

Estou aqui, sortuda que sou, com minha amiga, roommate na nossa república, contando sobre a coluna que me veio à mente hoje às 3h da manhã. Ana Kanamura, a ex dona de restaurante e que agora estuda as coisas do cérebro sem parar, enriquecendo sempre nossos cafés-da-manhã. E olha o que ela me conta:

“O bar só existe porque o ser humano é um ser social, que não nasceu para viver sozinho, isolado. É mais forte do que a gente. É físico. É cerebral. As conexões sociais fazem parte do instinto de sobrevivência do cérebro. Na evolução humana, o homem, sozinho, é muito vulnerável. Viver em comunidade tinha a ver com ter acesso a comida, calor, cuidado e proteção contra predadores. Criança chora quando ninguém encosta nela porque ela se sente desamparada. O cérebro entende que sem contato, ela está desamparada”.

“O mesmo caminho que o cérebro usa para expressar dor física é o que ele usa para expressar uma dor social, que tem a ver com isolamento, com desconexão. Isso é um jeito do cérebro te dizer que você está em perigo, que a sua sobrevivência está em jogo. A dor física mostra que tem algo errado com o seu corpo e a dor social mostra que você está vulnerável.” Que coisa maravilhosa! Obrigada, Ana!

O bar, mais do que o restaurante até, na sua maioria, não é destino de quem tá com fome fisiológica, mas de quem tem fome de gente ou de acalento, de papo aleatório, de afeto, de risada… De tanto mais! Bar é onde a gente se mostra, se exibe.

O copo que a gente segura, a roupa que a gente usa, o salto ou o chinelo, a gente paquera. No bar é onde o nosso pedido revela a nossa personalidade: whisky cowboy ou cosmopolitan? Shot de tequila ou garrafa de 600ml? As bebidas falam por nós sem falar.

O que o bar vende é tido como supérfluo, como bebida, algo que não é para subsistência do ser humano, mas o que seria de nós sem convívio divertido, sem o ambiente com cheiro de liberdade, de libertinagem, de bagunça? A cabeça surtaria, a dor viria, as válvulas de stress seriam diferentes…

A socialização pode ser com os amigos, com o crush, com os outros clientes, pode ser com a equipe ou até pode ser com ninguém, brincando com a textura do copo enquanto assiste à socialização alheia. O que importa é ter.

O vetor disso tudo é o álcool, o famoso lubrificante social, o ópio mais fácil e liberado do povo. Do martelinho de cachaça no balcão da esquina ao autoral do melhor do mundo. O álcool relaxa, acalma, desinibe, desestressa, revela outros lados, marca o final de um período do dia, o fim do trabalho, o começo do lazer.

Incerto é o futuro. Sim. Mas quando ele não é? Quando que ele não foi? A vida sempre é incerta. Só nunca fomos tão obrigados a entender isso quanto agora.

E quando tudo isso passar, a nossa indústria deve ser uma das primeiras a se recuperar. As pessoas estarão doidas por encontros e, com certeza, ainda mais em cidades grandes, sem praia, eles serão ao redor das mesas, em frente aos balcões, com o famoso lubrificante social, aos brindes! Tim tim! Saúde! Muita saúde! Aos gritos, vai valer até champagne que pisca. É isso que a gente gosta, é isso que a gente quer e é isso que a gente promove.